Os <i>vistos</i> e a ocasião

Jorge Cordeiro

O País terá acordado em sobressalto pelo sismo dos vistos gold. Talvez sem razão para tal espanto, olhada a falta de credibilidade do Governo e da sua política. Qual donzela ofendida, veio a maioria bradar sobre uma alegada confusão que entre Justiça e política estaria a ser imprimida à questão. Talvez agora com a demissão do ministro a conexão lhes pareça mais óbvia. Mesmo que a saída de Miguel Macedo, o escape encontrado pelo Governo para proteger outros envolvimentos, não seja mais do que isso: uma saída para procurar evitar o que emerge como ilação inevitável deste processo – a exigência de demissão do Governo. Bem pode o primeiro-ministro, secundado por Cavaco Silva, vir com ar indignado alegar que tudo continua na maior das normalidades, sustentada na inquebrável credibilidade governativa e no indesmentível funcionamento regular das instituições e dos mais altos cargos públicos. Fruto do delírio que o invade, teimará até poder em não mudar de sítio mesmo quando o tecto já lhes caiu em cima.

Os vistos gold, jóia da coroa e marca de água do Governo, são o que são: um instrumento que, a pretexto da captação de investimento, transporta um potencial de favorecimento de actividades ilícitas, branqueamento de capitais e, como agora foi revelado, de abrigo de foragidos à Justiça internacional. A muito popular expressão de que a «ocasião faz o ladrão» assenta aqui como fato à medida. Verbalizada neste contexto, registe-se a prevenção, como figura de estilo e dimensão política e não como antecipada sentenciação do que à Justiça diz respeito. Pelo que as indispensáveis e conhecidas formulações sobre presunção de inocência, indícios e o insubstituível «alegadamente» se devem considerar implícitas. Esperemos que aquilo que já se vai conhecendo – conexão de ministros e altas figuras do PSD com a emissão dos vistos, envolvimentos ao nível da cúpula de serviços do Estado, instruções políticas para agilizar os procedimentos –, não venha a submergir pelo lastro dos encobrimentos que justificaram a emersão dos conhecidos submarinos. Sendo que para a demissão de um governo, razões outras e de maior peso que não esta, teriam sido de há muito justificação bastante para a concretizar.




Mais artigos de: Opinião

Acrisolado

A ajuda do português Durão Barroso ao seu País na presidência da UE foi dizer que, se Portugal não cumprir os ditames da troika, «está o caldo entornado». Em vez de se indignar, o Presidente Cavaco optou por agraciá-lo há dias com um colar, ao mesmo...

Os três pontos

Na semana passada falámos aqui da entrevista de Cavaco em que o cavalheiro afirmou – ao jeito de uma outra declaração que no meio do lamaçal em que o País estava envolvido dizia que «está tudo bem e não podia ser de outra forma» – que as...

Anticomunismo pavloviano

Um jornal diário trata de «soviéticos» aviões russos que recentemente sobrevoavam o Atlântico. Um canal de televisão por cabo dedicado ao turismo fala de Kiev, «capital da Ucrânia ocupada pela União Soviética desde finais do séc. XIX»....

A luta dos comunistas

No Avante! de 6 de Novembro, como é próprio dum jornal que é o órgão central do PCP, com a sua natureza de classe, publicaram-se diversos artigos, temas, notícias, argumentos, reportagens com um destaque central para a luta e organização dos trabalhadores e do povo, e do PCP como seu Partido de vanguarda. Mereceram igualmente atenção, no mesmo plano de classe, acontecimentos nacionais e internacionais e leituras e análises sobre questões da actualidade.

Absurdo sem limites

O cantor e humorista norte-americano Tom Lehrer notabilizou-se nos anos 50 e 60 pelas suas canções satíricas progressistas. Anos mais tarde deixou de cantar. Interrogado sobre as razões, declarou que «a sátira política tornou-se obsoleta no dia em que [no final da guerra...